sexta-feira, 11 de setembro de 2009

dia d aniversário



Mais alguém da família está de aniversário este mês. Quem tem família grande sabe do que estou falando. É batata! Num mês é uma tia quem está soprando as velinhas, no outro é um primo, depois o pai e, lá pro final do ano, a avó. Isso, quando tia, primo, pai e avó não fazem aniversário no mesmo mês. Não é um barato quando isso acontece? E o melhor de tudo é que ainda sobraram oito tios, duas irmãs, uma mãe, outra avó, o cachorro Pinduca e aquele amontoado de primos distantes para os onze meses restantes do ano.

Aniversário é uma coisa incrível. É a ocasião em que celebramos o dia do nosso primeiro choro, da nossa primeira palmada na bunda, da entrada de ar em nossos pulmõezinhos pela primeira vez. Só em lembrar que fomos o César Cielo dos espermatozóides, deixando aqueles milhões de otários para trás, os ânimos ficam renovados. Isso, até alguém esquecer de dar os parabéns. Não é preciso dizer que o desafortunado vai direto para a lista negra. Ainda mais nesses tempos de passagens aéreas a partir de 99 reais, DDDs com tarifa de ligação local, bilhetes únicos, orkuts, messengers e twitters.

Fazer aniversário é sempre bom, mas nos finais de semana ou feriados de intestino preso é melhor ainda. Nesses dias, não é preciso sair do sofá para nada, nem mesmo para comprar fósforos no mercadinho da esquina ou ir ao banheiro fazer o número dois. Assim, se o carteiro chegar com um presente de caixa grande ou se um amigo ligar em casa, não haverá o problema de não se desvencilhar do papel higiênico a tempo de atender a porta ou o telefone.

As horas passam corridas. Na caixa de correspondência apenas encartes com promoções de frango congelado e batata inglesa. Você teve diarreia a tarde toda. Os primeiros convidados chegam. A festa começa.

Os mais velhos insistem em resgatar histórias que nos deixam constrangidos, seja contando para todo mundo que fazíamos xixi na cama até os dez anos de idade ou, então, que éramos apaixonados pela faxineira da perna peluda. O tio “empreendedor”, agora com a quarta esposa, é presença confirmada, sempre. Festas assim são grandes oportunidades para ele conseguir empréstimo com os irmãos. A mãe monopoliza o videokê e só para de cantar Roberto Carlos na hora do “parabéns pra você”.

Existe momento mais constrangedor do que essa hora? Não saber se também bate palmas ou se sorri olhando para baixo. Existe! A hora de fazer o discurso.

- Discurso! Discurso! Discurso!

Todos fazem silêncio. Os grilos lá no quintal fazem silêncio. Todos olham para você. Até o cachorro Pinduca olha para você. Para impressionar e fazer bonito, se inspira em Shakespeare, Camões e Neruda. Não consegue dizer muito mais do que um “muito obrigado pela presença de todos”. E quer morrer.

Chega o momento de cortar o bolo.

- O primeiro pedaço vai para...

Todos, novamente, olham para você. Exceto o cachorro Pinduca, que agora olha para o bolo.

- vai para...

As avós olham atravessado uma para a outra. A tia acha que já está ganho. A mãe lhe sorri com cara de “como é grande o meu amor por você”. Você fecha os olhos e fala receoso:

- Este ano, vou dar o primeiro pedaço de bolo para a minha irmã mais velha, a Mariana, que tem me ajudado muito nessa minha fase de recém-formado.

Pronto, passou. Você agora já consegue respirar novamente. A madrinha, sentada em uma cadeira ao fundo da sala, recomeça a falar sobre o último episódio da novela das oito. O tio volta a explicar o motivo da troca de carro. Tudo parece normal, apesar de pegar suas avós conversando sobre a ingratidão dos jovens dessa geração.

Para encerrar a noite, por fim, ainda é preciso abrir os presentes. Você, afoito, esquece o que sua mãe falou sobre guardar as embalagens e dilacera o pacote num só golpe.

- Que legal! Um par de meias brancas!

E, assim, pensa em morrer mais uma vez.

2 comentários:

  1. leitora desamparada: cadê as novas crônicas? não deixa a gente assim!

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