quinta-feira, 3 de setembro de 2009

where do you work?



Era uma terça-feira bem comum, daquelas que têm cara de terça-feira mesmo. A temperatura lá fora estava mais ou menos, o almoço estava mais ou menos, o fulgor da vizinha robusta do 107 B, sempre tão falante e cheia das energias, estava mais ou menos. Ainda assim, ainda que diante daquele amontoado de sensabores, ele conseguiu sorrir a caminho da aula. Foi então que o relógio marcou sete horas da noite.

Na sala de paredes brancas, duas mesas retangulares envoltas por cadeiras carentes de estofos desenhavam um bem ao centro. Um alarme esganiçado, semelhante ao dos relógios despertadores de corda antigos, soou. O professor, de um semblante erudito, deu boa noite aos alunos e perguntou em inglês como todos estavam. Livros foram abertos em um capítulo que falava sobre profissões. Logo não haveria mais volta. Um virar de páginas, apenas, e toda a verdade seria exposta.

Alguns colegas, sempre tão íntimos dos ternos e dos tailleurs, simulavam diálogos com recepcionistas gringos de papel. O professor interrompeu a anotação em vermelho sobre a lousa branca e dirigiu o olhar a ele:

- Where do you work?

De todas as perguntas existentes, qualquer o idioma, aquela era a mais difícil de ser respondida. Como ele desejou não ter ouvido aquilo. Afundado na cadeira, tentou desviar o olhar e fazer uma cara de indiferença, de interrogação, de clemência, uma cara de qualquer coisa. De nada adiantou. O professor o chamou pelo nome e perguntou o que já havia perguntado:

- Where do you work?

Os poucos que estavam naquela sala de primeiro andar transformaram-se em multidão. Todos o olharam fazendo um silêncio que atordoava. Ele engoliu a saliva. Cada vez mais ficava difícil puxar o ar até os pulmões. O soco do constrangimento lhe acertara em cheio o estômago. Precisou de um esforço hercúleo para rir um riso que não parecesse de todo falso.

Ele contou até dez em menos de um segundo e, então, vociferou desafinado:

- Eu estou desempregado.

Ele não soube falar aquilo em inglês.

4 comentários:

  1. Quando temos um pouco mais de “tempo ocioso”, assim podemos dizer, tudo vira um desafio. Uma pergunta que, outrora, foi motivo de orgulho, hoje representa uma condição a ser mudada. “Onde você trabalha?” faz a leitura de uma situação cotidiana pela ótica de quem está dentro desse jogo, na corrida contra o tempo em vários aspectos.

    Parabéns, mais uma vez, pelo excelente texto.

    Conte comigo!

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  2. magistral. não poderia ser diferente...

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  3. Tchêê!
    Só de ler teu post afastei a ideia de ir morar em São Paulo. Por pelo menos cinco anos..hehehe
    Ah! Gostei do blog...vou virar leitor assíduo! Abraço

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